Sobre o retrato de Arnolfini e a sua esposa

Sobre o retrato de Giovanni di Nicolao Arnolfini e a sua esposa

Como ilustração para este website, optámos pelo Retrato de Giovanni Arnolfini di Nicolao e a sua esposa Giovanna Cenami, que Jan van Eyck pintou em 1434 em tinta a óleo sobre madeira. O quadro encontra-se desde 1842 na National Gallery em Londres.

Significado

No quadro vêem-se opiniões do século XV sobre o matrimónio e modelos entre homens e mulheres. Giovanni Arnolfini está vestido num estilo de negociante. Está prestes a sair de casa para ir ganhar os rendimentos da família. A janela aberta ao lado simboliza a sua vida mundana. A sua esposa, por sua vez, está ao lado da cama, símbolo do seu papel como responsável da casa. Giovanni olha directamente para o espectador, enquanto que a sua esposa olha para o marido de forma prestável.

A cerimónia do casamento

Existem diferentes teorias sobre o significado e interpretação deste quadro. Geralmente o quadro é interpretado como sendo uma certidão de uma cerimónia de casamento. Arnolfini e a sua esposa casam-se e o quadro retrata o momento em que o casamento é celebrado. O espelho convexo na parede de trás do quarto reflecte, para além de Arnolfini e a sua esposa, mais duas figuras na porta. Estão assim presentes duas testemunhas para legalizar o casamento. Uma delas é provavelmente o próprio pintor, que, pela primeira vez na história da arte, se retrata a si próprio como testemunha / pessoa presente num quadro. A moldura do espelho contém imagens da Paixão de Jesus Cristo e representa a promessa de Deus de salvar as pessoas no espelho redondo. O próprio espelho simboliza Maria e refere-se à Imaculada Conceição e à pureza da Virgem Santa, representando além disso o Olho de Deus, que, desta maneira, é testemunha na cerimónia.

O cão pode ser interpretado como o símbolo da luxúria, simbolizando o desejo do casal de ter um filho nessa grande cama vermelha. O cão pode também ser visto como símbolo da fidelidade; estabilidade doméstica e tranquilidade (‘Fido’, o nome usual em latim para os cães, significa ‘confiança’).

O castiçal de sete braços contém apenas uma vela, provavelmente a vela que a noiva ofereceu ao seu noivo segundo a tradição flamenga. Uma vela acesa à luz do dia simboliza por norma o sempre presente Espírito Santo ou o Olho de Deus.

As laranjas na mesa junto à janela referem-se provavelmente à fertilidade e simbolizam a pureza e inocência no Jardim do Éden antes da queda. Atrás do casal, as cortinas da cama conjugal estão abertas, sendo uma representação da visita e bênção da Santíssima Trindade.

Nem Arnolfini, nem a esposa usam sapatos. Isto demonstra o respeito e consciência da santidade e beatitude do matrimónio. Os tamancos em primeiro plano são provavelmente um sinal de respeito pela cerimónia de casamento e apontam, além disso, para o facto de este acontecimento ter lugar em terra santa. Tradicionalmente os maridos ofereciam tamancos às suas esposas.
As cortinas vermelhas da cama referem-se ao acto físico do amor, à união carnal do casal casado. A cor verde do vestido da mulher simboliza a esperança (talvez a esperança de ficar mãe). A sua toca branca simboliza a pureza. O contraste entre o vermelho e o verde um ao lado do outro sugere a aproximação dos pólos opostos.
O quadro está assinado, previsto de uma inscrição e datado na parede acima do espelho:

Johannes de Eyck fuit hic. 1434

A inscrição (Jan van Eyck esteve aqui. 1434) indica que o pintor Van Eyck estava presente para pintar a cerimónia do casamento. Escreveu a sua assinatura num tipo de letra que era corrente em documentos legais. Por isso, o objectivo do quadro parece ser uma cópia certificada e o registo do casamento, e vale portanto como certidão de casamento.

Impressionar o espectador

Outra teoria sobre este quadro interpreta o retrato no contexto economico-histórico na cidade de Bruges no século XV. Em inícios deste século, Bruges era o principal ponto nodal de comércio na Europa do norte, atraindo numerosos diplomatas, comerciantes e mercadores estrangeiros. Arnolfini, descendente de uma família italiana de mercadores muito importante de Lucca, viveu toda a sua vida em Bruges, onde negociava em tecidos preciosos, objectos e tapetes. O quadro representa o nascimento de uma burguesia rica de comerciantes internacionais que, num curto espaço de tempo de cerca de dez anos, cresceu de insignificante para riquíssimo e poderoso o suficiente para poder comprar quadros. Assim, o quadro é um retrato da classe rica de comerciantes, que como ‘novos ricos’ adora ostentar as suas posses.

Vemos a senhora Arnolfini vestida segundo a última moda. O seu vestido, feito dos melhores e mais caros tecidos, até foi debruado com arminho. Na janela, há uma laranja descuidada, sinal de riqueza, já que apenas a elite rica podia permitir-se esses furtos. O quadro não mostra propriamente o que Arnolfini e a sua esposa possuem, mas antes o que querem mostrar a sua riqueza e o seu bem-estar.

Jan van Eyck (c. 1385-1441)

Jan van Eyck foi um pintor flamengo do século XV, e um dos primeiros pintores a usar tinta a óleo. Jan van Eyck é o irmão mais novo de Hubert van Eyck. Morreu em Bruges e foi enterrado aí em 9 de Julho de 1441. O quadro de Arnolfini e a sua esposa é considerado uma das suas obras-primas e um auge na história da arte. Foi a primeira vez que foram retratadas duas pessoas normais em interacção / conversa numa cena doméstica num interior normal. Foi também a primeira vez que um pintor que colocou uma assinatura tão clara num quadro.

Com agradecimento à página em Wikipedia sobre o quadro.

© Anne Logman, EOI Barcelona